sábado, 3 de março de 2018

Ateísmo

(...) Noto a necessidade da afirmação da não-existência de Deus: mas para se lutar contra algo, ou dizer "não" para aquele algo, negar a sua existência, é antes preciso que se acredite profundamente na sua existência. Da mesma forma, escolher a afirmação da crença na existência de Deus ao ateísmo é também uma grande necessidade de que Deus exista. Isso não necessariamente é acreditar na sua existência. Há algo de impertinente na afirmação linguística. Afirmar linguísticamente é, de certo modo, um ato posterior à impressão e, acima de tudo, uma resposta à passagem dessa impressão mesma. À passagem do tempo e a necessidade de cristalização. A afirmação linguística é uma cópia imperfeita, caso se acredite n'algum fato prévio perfeito mas, antes, uma criação artística - que pressupõe a memória. A memória mesma é algo de artístico, um produto de artista - e não-permanente, uma vez que se transforma, à medida do futuro que aceitamos adentrar-se em nós. Essa memória, que sentimos enraizada na língua, é coletiva. A comunicação interpessoal é o que presta alma à língua, de modo que todo sentido que uma palavra como "Deus" evoca sempre haverá de estar relacionado com essa memória coletiva de um determinado lugar e cultura. O sentido e o afeto evocado na pronúncia de uma palavra estão intimamente ligados à memória de um povo. De modo que, quando digo que Deus não existe, estou me referindo unicamente ao sentimento de Deus que a minha cultura teve até então. Que sentimento é esse? eu me pergunto. Da mesma forma: o que a necessidade em negar Deus diz sobre os meus contemporâneos? A fuga é de quê? Do passado: dos atos dos meus antepassados, dos seres humanos que nos precederam. Da sua loucura, caos, desespero, humilhação e sufoco, que reverbera através dos tempos até o dia de hoje, que grita nos ouvidos das pessoas por intermédio da cultura. Porque, o que é Deus senão uma projeção da consciência na tela azul do céu? Existe um fio invisível que puxa a muitos de nós para baixo, para trás, para o nada, para lugar-nenhum, como que uma força que suga alma, vitalidade, brilho, e que parece nos obrigar a agir de certas formas que nos escapam do controle, como que um afogamento gradual, um apagamento, um engolimento gradual, cuja porta de entrada é aquilo que socialmente está sacralizado nas ditas leis da boa conduta. Uma vez que a preferência é a proteção e não o livre-expressar do corpo e da mente, o ciclo vicioso se inicia. O escambo para a proteção é justamente a espontaneidade. A liberdade econômica ganha, a liberdade metafísica perdida. Muitos eruditos e teóricos surgem, muitos moralistas surgem, muitos cães-humanos contentes também... Não que isso seja um problema, mas a tirania é a grande mãe da felicidade aconchegante, em que, enquanto se descansa e se come bem, se esvai aquela dita vitalidade animal essencial à sobrevivência. Torna-se um jardim aberto a qualquer um, qualquer sentimento, qualquer erva daninha, não há cuidado nas escolhas e nas palavras, até que, em pouco tempo, a nossa auto-imagem se torna um rascunho todo rebocado, não fosse a razão se esforçando nesses tempos difíceis. (...)